Condições da escola Ngola Mbande são um atentado contra a saúde

Há um rabisco, robusto e serpenteado  no meio do quadro, tem a cor castanha, pelo que se descarta, que seja desenhado com giz. Mas, sim, com fezes. À semelhança desta sala da escola, do ensino secundário do I ciclo Ngola Mbandi, todas as outras são difíceis de serem divisadas os números. Estão sem portas, sem carteiras.

Fixamo-nos no meio da porta já sem as dobradiças, a direita e debaixo do quadro observam-se, objectos humanos, ainda húmidos, á esquerda, uns três “montes” já em decomposição.
As salas da ala direita, dão uma ampla vista do quintal, dividido  entre transeuntes e viaturas em circulação. O muro da rampa é baixo, medindo  pouco mais de um metro.

Os marginais, penetram por esta e outras vias para o interior com um único objetivo: vandalizar a escola.
As paredes cor de rosa, cravadas de rabiscos, têm expressões ofensivas, o senso dos alunos e professores não são poupados pela tamanha vergonha e pelos disparates que se dão a ler.

O professor José Manuel, é o coordenador do turno da noite. Já estava de saída, quando respondeu de forma positiva ao pedido do director administrativo, para ser o nosso cicerone. Conhece todos os cantos como ninguém, aliás foi também aluno da escola, há décadas. O lugar, parece mais de duendes do que de transmissão do saber. Se não fosse uma viatura estacionada, na entrada principal da escola, era acreditável que ela estivesse encerrada.
“Aqui não conseguimos manter a segurança, por falta de portões”, indica José Manuel, quando apresenta a sala dos professores, que também já foi alvo de assalto. Na altura, os marginais queimaram a porta para roubar materiais didácticos.
Os enjoos são, literalmente, oferecidos pelo mau cheiro das fezes, cuja descrição é quase indizível. As casas de banho, são inutilizáveis: azulejos e mosaicos sórdidos, sanitas emporcalhadas e adubadas com objectos

. Depois do primeiro passo de cócoras, é impossível arrancar o segundo nas casas de banho. A imundice, só é encarada com o corte temporário da respiração.
O funcionamento da escola Ngola Mbandi, atenta contra a saúde e os direitos das crianças e professores. À semelhança da sala dos professores, as coordenações de disciplina têm igualmente portas de ferro com grades. As portas de madeira foram arrombadas, hoje as coordenações, encerradas apenas com gradeamento, convivem com o pó, baratas, moscas, teias de aranhas, ratos e mau cheiro das fezes dos inimigos da escola.

O guarda de serviço,  tem a farda impecável, mas com uma costura muito visível e longa na parte de trás. Junta-se para informar que o director-geral, já está na escola. Com um olhar retraído, conta que ele e o colega foram agredidos, antes do fim do ano lectivo, por familiares de alunos. O colega esteve vários dias em coma.
“Só trabalhamos duas pessoas por dia. A escola é grande e, verdade seja dita, não é possível controlarmos tudo, por causa das várias entradas”, explica, enquanto dá costas ao repórter para mostrar a costura na camisa, rasgada durante a confusão.
Os laboratórios de Biologia, Química e Física, estão encerrados devido aos assaltos. Hoje estão vazios. José Manuel, leva-nos de seguida à sua coordenação. Tem uma pilha de papéis em prateleiras improvisadas, umas cadeiras e mesas velhas, necessitando de substituição.
O átrio principal está no centro, o jardim foi tomado pelo capim e nalguns lugares maltratado. O jardineiro, desistiu por falta de pagamento. A escola não recebe verbas para manter o espaço verde, a escada está a ruir, tal como algumas paredes com fendas.
Com ou sem aulas, os marginais entram para inalar drogas, a  segurança é circunscrita mais na zona administrativa.

O portão, foi arrombado pela comunidade e, até hoje, não se sabe quem levou, nem mesmo a polícia, localizada a quase um quilómetro, apanhou os malfeitores.

Alunos são vítimas 
Em tempo de aulas, os delinquentes entram pelo muro, fazem ameaças e roubam os materiais didácticos e telefones.

Os alunos da noite, são as principais vítimas, a escola tinha cerca de 31 salas de aula, agora funciona com menos devido à degradação em flecha. As salas têm as janelas de vidro e persianas partidas. No ano passado, o período nocturno, abriu com 16 salas. O tecto de uma das salas já caiu, por sorte não causou danos a alunos.

A última vez que a escola recebeu pintura, sem profundidade, foi em 2006.
Duque Brás, é o coordenador do turno da manhã, ele traz uma mochila, cujas alças são suportadas pelo ombro direito. Convida-nos a entrar no gabinete, que, como os demais, já tinha sido arrombado.
O professor conta, que a escola precisa de obras e de uma segurança reforçada. “A Brigada Escolar vem de manhã e à tarde vai embora”, explica, enquanto arrasta uma cadeira envelhecida pelo tempo. Em algumas salas de aula, a direcção da escola, retirou as janelas de caixilharia e guardou-as na sala dos professores para não serem roubadas. “Na semana passada tentaram roubar duas janelas”, lembrou José Manuel, apontando com o dedo indicador para o muro de entrada dos marginais.
Estamos na coordenação de Língua Portuguesa, a única porta é de ferro em forma de grade. Pode-se ver umas cadeiras, um vaso com flores artificiais repletas de poeira, alguns meios foram retirados para evitar mais uma vandalização.
Em tempo chuvoso, o tecto deixa passar gotículas de água, que emperra o curso das aulas. Até os gabinetes dos directores verte água e a partir da parede vê-se manchas.
O professor José Manuel, tem calça e camisa sociais, mas é um homem incansável quando o assunto é percorrer a escola. “Olha para esta sala, senhor jornalista, os alunos defecam na sala quando não querem ter aulas”, diz num tom sarcástico, indicando para as fezes distribuídas pelos corredores.

 

Post Author: facesdeangola

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